Espanha e Marrocos acordam acabar com ofensas mútuas sobre territórios
Espanha e Marrocos assumiram hoje o compromisso de acabarem com discursos e "práticas políticas" que possam "ofender" a outra parte, especialmente em temas relacionados com a soberania sobre alguns territórios, como o Saara Ocidental, Ceuta e Melilla.
© David Zorrakino/Europa Press via Getty Images
Mundo Saara Ocidental
"Assumimos um compromisso de respeito mútuo pelo qual no nosso discurso e na nossa prática política vamos evitar tudo aquilo que sabemos que ofende a outra parte, especialmente o que afeta as nossas respetivas esferas de soberania", afirmou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, em Rabat, onde hoje terminou a primeira cimeira entre os dois países desde 2015.
Madrid e Rabat têm tido conflitos diplomáticos recorrentes ao longo dos anos, alguns deles, envolvendo o Saara Ocidental, antiga colónia espanhola ocupada por Marrocos há quase 48 anos, e os enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, que estão no meio de território marroquino e que o país do norte de África reclama, considerando-as "cidades ocupadas".
A cimeira que hoje terminou na capital marroquina selou, segundo os dois países, uma "nova etapa" nas relações bilaterais, iniciada em abril do ano passado, quando Espanha e Marrocos assinaram uma declaração conjunta para pôr termo a mais uma crise diplomática que se arrastava há um ano.
Nessa declaração, Espanha mudou a sua posição histórica em relação ao Saara Ocidental e reconheceu que a proposta apresentada por Rabat em 2007, para que aquele território seja uma região autónoma controlada por Marrocos, é "a base mais séria, credível e realista para a resolução deste litígio".
Espanha defendia até então que o controlo de Marrocos sobre o Saara Ocidental era uma ocupação e que a realização de um referendo patrocinado pela ONU deveria ser a forma de decidir a descolonização do território.
Em troca, na mesma declaração de abril passado, Marrocos reconheceu implicitamente ter fronteiras terrestres com Espanha, ao acordar a instalação de alfândegas em Ceuta e Melilla.
Hoje, no final da cimeira de Rabat, os primeiros-ministros dos dois países disseram que Marrocos e Espanha decidiram criar mecanismos para manter um diálogo permanente sobre todos os temas, "por mais complexos que sejam", e acabar com "atuações unilaterais", segundo as palavras de Pedro Sánchez.
A cimeira acabou com a assinatura de 19 acordos, que vão deste as "políticas migratórias", para abrir "vias de migração regular", até à "normalização" da passagem de pessoas e mercadorias pelas fronteiras partilhadas, o que inclui a abertura "ordenada e progressiva" das alfândegas de Ceuta e Melilla, ainda segundo o primeiro-ministro espanhol.
Madrid e Rabat acordaram também uma "nova parceria económica avançada", para abrir caminho a investimentos espanhóis em Marrocos em "setores estratégicos" para "a modernização e desenvolvimento" do país, como a gestão da água, a ferrovia, o setor agroalimentar ou o turismo, explicou Sánchez.
"Espanha quer ser um investidor de referência para Marrocos", disse o primeiro-ministro espanhol, numa declaração ao lado do homólogo marroquino, Aziz Akhannouch, sem direito a perguntas dos jornalistas.
Sánchez considerou que esta cimeira (designada oficialmente como uma Reunião de Alto Nível) é "um marco para Espanha e Marrocos", que assim consolidaram "a nova etapa" da relação bilateral, num "clima de confiança mútua e garantia de cooperação como nunca antes tinha existido entre os dois países".
Também Aziz Akhannouch falou num "novo impulso" das relações com Espanha e na consolidação de um "diálogo transparente e contínuo", baseado no "respeito" e nos "interesses mútuos".
O líder do Governo de Marrocos saudou a nova posição de Espanha em relação ao Saara Ocidental e o apoio à proposta marroquina para resolução de um "conflito artificial" naquele território.
Para Aziz Akhannouch, "o número e a natureza" dos 19 acordos hoje assinados pelos dois Governos "consolidam a parceria estratégica" entre Madrid e Rabat e mostram como "as relações económicas superam o que é conjuntural".
"As relações bilaterais nunca tinham alcançado este nível de cooperação", acrescentou, segundo a tradução simultânea oficial para espanhol da declaração em árabe do primeiro-ministro de Marrocos.
Em 2022, e com a recuperação das relações diplomáticas, as trocas comerciais entre os dois países aumentaram 33% em relação a 2021 e os fluxos migratórios ilegais que chegaram a Espanha desde Marrocos diminuíram 25%.
Para a cimeira de Rabat, o socialista Pedro Sánchez levou 12 ministros, nenhum do parceiro de coligação no Governo espanhol, a Unidas Podemos, que discorda da mudança de posição em relação ao Saara Ocidental.
A cimeira realizou-se também num momento de tensão de Marrocos com a União Europeia (UE), por causa do alegado envolvimento de Rabat no escândalo de corrupção "Qatargate", relacionado com alegados subornos de elementos do Parlamento Europeu.
O Parlamento Europeu aprovou recentemente uma resolução em que pede a Marrocos para respeitar a liberdade de expressão, contra a qual votaram os eurodeputados do Partido Socialista espanhol, liderado por Sánchez.
Espanha assume a presidência do Conselho da UE no segundo semestre deste ano e Sánchez disse hoje que será uma oportunidade para um "salto qualitativo" da relação de Marrocos com a Europa.
Leia Também: Amnistia pede a Espanha para não ignorar Direitos na relação com Marrocos
Descarregue a nossa App gratuita.
Oitavo ano consecutivo Escolha do Consumidor para Imprensa Online e eleito o produto do ano 2024.
* Estudo da e Netsonda, nov. e dez. 2023 produtodoano- pt.com